Quando me deparo com uma canção, imediatamente me relaciono com seu texto, e sua interação com o conjunto melodia-harmonia. De início já escuto esse trio de efeitos que a constitui e essa somatória pode ou não me mover a cantar. Essa apreciação em geral se dá com a mediação de um intérprete na maioria das vezes; algumas outras menos frequentes (mas não menos significativas) acontecem a partir do contato com a canção escrita (songbooks e outras transcrições).
Procuro sempre caminhar nos dois sentidos dessa via, tanto partir da leitura e chegar na referência sonora, quanto procurar várias referências e chegar numa forma escrita. Esse jogo me estimula a mergulhar no universo da canção, a me embrenhar em seus cantos mais sutis e óbvios, e enquanto me delicio com as novas descobertas vou sentindo o que ela me provoca, no corpo, na atitude, na emoção, na voz.
Algumas vezes, a empatia é imediata e pouco mediada. Noutras situações é necessário, e por diversos motivos, horas de imersão. Então é ficar, escutando e cantando, saboreando o texto, degustando cada sílaba, desenhando cada cromatismo, bordando linhas melódicas, experimentando cores, timbragens, maneiras diferentes de dizer, minha maneira de dizer. O mergulho é profundo e apaixonado.
Logo vêm as escolhas – escolher o andamento, o caráter, a tonalidade. Nessas escolhas, fala mais alto o sentimento, a entrega despertada, aquela emoção não dizível que moveu meu corpo na direção daquela canção. Da expressão à técnica, relacionar essa emoção sentida com as possibilidades acústicas do meu corpo, da voz, sua ressonância, sua flexibilidade timbrística.
Nem sempre a tonalidade escolhida enquadra-se exatamente na região mais confortável da minha extensão – você pode até pensar que isso não é muito sábio da minha parte, mas algumas vezes correr o risco nos limites da voz está absolutamente comprometido com o desejo desperto na escuta. Naturalmente esse é o tipo de risco que não se corre sem rede de segurança. Existe o momento certo para adotar essas escolhas – o lugar certo, o arranjo certo, o equipamento, os músicos intérpretes que juntos criam esse ambiente de cumplicidade emotiva para transmitir a mensagem-canção.
Quando comecei a trabalhar sobre o repertório do show Última Inspiração, pude vivenciar profundamente essas escolhas. Pela primeira vez não era eu quem propunha um repertório. O show surgiu de uma idéia do pianista José Vieira, de interpretar canções brasileiras da primeira metade do século XX, com um recorte emocional, canções de amor, de dor, falar do sofrimento sem pudores, da entrega, da perda. O trabalho inicial seria de piano e voz, com um tratamento cênico, algo que remetesse aos cabarés, e que tivesse relação com o que estava sendo tocado e cantado.
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| marcio modesto, flauta; luciana rosa. cello; ritamaria, voz e percussão; josé vieira, piano na casa de dona yaya, agosto de 2011 - foto de Leticia Saba |
Das mãos dele veio um repertório, uma pesquisa inicial, um recorte pessoal, um caminho já percorrido ao piano, solo. Escutei, li, e fui fazer minhas escolhas. Algumas canções naturalmente encontraram ressonância no meu corpo e na minha voz, como estavam. Outras precisavam ser transformadas, e outras ainda rejeitadas. Esse processo é delicado e envolvente, não se despreza uma canção imediatamente, a não ser que ela realmente não tenha nenhuma identificação com a alma e o corpo do intérprete.
A seleção se deu de acordo com a temática, com o roteiro que aos poucos se delineava, contando pequenas histórias de amor e separação, de encontros e rompimentos, e com a intimidade que o duo estabelecia com cada canção. Fui escolhendo as tonalidades tendo em vista a sonoridade da voz ao microfone, que me permite cantar em regiões extremamente graves, explorando os limites da minha extensão, com um certo peso.
O show foi para os palcos e incorporou o cello da Luciana Rosa e algumas percussões tocadas por mim. Em geral as apresentações aconteciam com o aparato eletrônico, mas em meados de 2011 esse quadro mudou, e fizemos alguns concertos totalmente acústicos. Uau! A voz encontrou então um desafio – qual seria seu espaço acústico agora? Não havia de imediato a possibilidade de mudar a tonalidade de algumas canções, devido aos arranjos, que já estavam formatados, nas mãos dos instrumentistas.
Duas soluções foram adotadas – a primeira foi a exclusão de algumas canções que ficavam no limite extremo da voz. A outra foi retrabalhar a interpretação e o arranjo, para permitir que a voz encontrasse seu espaço nas regiões de maior risco e limite. Foi interessante e enriquecedor.
Conhecendo meu som e sabendo como aproveitar o melhor dele, tinha consciência das limitações técnicas a que estaria submetida – minha região grave é frágil e tem pouco volume de som. Minha voz é extensa, mas como boa soprano, rende muito melhor a partir do Dó central (Dó 3) em direção aos agudos. Meu sub-registro de peito é bastante flexível, e consigo misturar voz de cabeça para caminhar em direção aos agudos sem perder peso e sem perder o que chamo de “coloquialidade” – o texto das canções é o condutor do trabalho, sua inteligibilidade era fundamental.
Uma coisa crucial para enfrentar o risco (porque afinal muitas das canções orbitam na região médio-grave da voz) foi ter em mente algumas das idéias de performance, de novo o Paul Zumthor (você que me lê sempre, já viu o quanto estou comprometida com esse senhor...). Voz é corpo, e a performance sem a mediação eletrônica permite que toda a corporalidade seja transmitida, com um ingrediente que ele denomina tatilidade (Zumthor, 2005, p. 94).
Pensando nisso, guiei-me pela idéia de que todo o corpo transmite a mensagem, todo o corpo ressoa, expressa e comunica, nem sempre através da verbalização. Mesmo que a voz não pudesse ser claramente ouvida, ela era de alguma forma sentida, percebida, presenciada pelo corpo e pela relação que eu estabelecia com o espaço das apresentações e com o público presente.
Era importante então que esse corpo estivesse numa posição de disponibilidade interna e externa, num estado de descontração muscular, para comunicar a mensagem e reverberar com o som. Tecnicamente, o som que se produz com esforço tem menos profundidade. O esforço aprisiona a voz. Uma situação de risco estimula o esforço, de uma certa maneira. Uma ação natural do corpo é fazer força para vencer o obstáculo. A técnica permite que esse esforço seja distribuído pelo corpo e não concentrado na garganta.
Numa das experiências que tive com o desvendar da voz (aulas com o Thomas Adam), pude compreender o quanto se amplia o corpo sonoro apenas permitindo que o som reverbere no corpo físico – o fortalecimento de alguns centros de ressonância permitem uma expansão do som, com permeabilidade e ao mesmo tempo com concentração. Nesse trabalho, pude vivenciar uma espécie de timbragem da voz com os instrumentos, me valendo da sonoridade dos mesmos para enriquecer o timbre, e dar corpo ao som do conjunto.
A voz se destaca pela palavra entoada, e a articulação bem realizada permite que se compreenda o que está sendo dito. Ainda com relação à técnica vocal, quanto melhor a articulação mais se cria espaços para o som. O Thomas Adam trabalhou a articulação numa aula, da seguinte maneira: pouco trabalho laríngeo, pouca pressão de ar, muito trabalho nos lábios, nos músculos da face – resultado: som bastante projetado, e com um espaço interno amplo, livre, leve e denso ao mesmo tempo.
Um outro fator, além da disponibilidade muscular e da articulação, foi a respiração. Cantar acústico exige mesmo, muito mais do fole intercostal e da musculatura do baixo ventre (períneo principalmente). As frases, para ter a mesma duração, solicitam um controle de ar muito maior, e ar com mais pressão (o microfone permite uma redução na pressão do ar). Essa relação foi se aprofundando a cada apresentação, e o desafio era ampliar o volume sem estreitar os espaços e sem perder as sutilezas, a dinâmica, o sussurro, o detalhe.
Na preparação para essas apresentações, o contato com o ambiente é sempre fundamental – a voz sempre encontra um metal para refleti-la, uma madeira para encorpa-la, um vidro para reverbera-la, cada espaço tem seu segredo, cada lugar tem uma direção que favorece a emissão e propagação do som da voz acústica. E fica a graça de poder brincar com esse espaço, percorre-lo de diversas maneiras.
O livro do Paul Zumthor – Escritura e Nomadismo, o capítulo se chama A Presença da Voz – são entrevistas, cada resposta dá a chance de desenvolver uma tese.
Fica aqui um gostinho do Última Inspiração, pra quem ainda não viu. Escolhi uma canção e que a voz está no limite - a gravação não colabora em nada, precisa mesmo ver ao vivo - está o convite!!!!

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