Creative voices, uma experiência musical de criação coletiva, colaborativa, inclusiva. Isso faz algum sentido? Para mim, muito, todo. Experimentei esse trabalho na semana que passou, num workshop que aconteceu nos dias 17 e 19, no Espaço Musical. A convite do Fernando Machado, o grupo londrino Soundcastle veio para um intercâmbio artístico e essa era uma das atividades.
O grupo trouxe para o workshop um pouco da experiência do trabalho desenvolvido por elas em Londres, trabalho com o qual muito me identifiquei. A proposta da criação coletiva e inclusiva é bastante interessante. Existe por trás do trabalho uma disponibilidade, um estado de espírito, uma postura, e é sobre isso que quero falar.
Nessa proposta, a idéia é que cada um possa dar vazão a sua musicalidade, experimentar e compartilhar idéias musicais, sem preconceitos. Dito assim, parece praticamente impossível, afinal, como nos despimos daquilo que estudamos, que treinamos exaustivamente, daquilo que foi implantado em nossa mente? Pois não se trata de despir-se de nada, mas de permitir-se acessar o que existe, da forma como isso aparecer, sem muito julgamento, análise ou crítica. Sim, muito difícil ainda. E isso é o mais encantador da proposta, pois muito difícil isso dito, mas não isso feito.
O que mais me encantou no trabalho do grupo é a maneira como elas criam o ambiente necessário para que isso se realize. Melhor descrito, esse estado de aceitação e inclusão já existe em cada integrante do grupo - uma postura de receptividade, não sei exatamente como descrever, mas é como ser música. Uma percepção amplificada, alargada, ou um estado de prontidão para aprender, receber e incorporar novas informações, com curiosidade, carinho, respeito e música. É ouvir o som com ouvidos limpos, ouvir a sonoridade, identificar o ethos do som, sem pensar em seu caráter técnico, histórico, cultural. Mas sem dispensá-lo ao mesmo tempo.
Um paradoxo? Pode ser. Para mim, o que experimentei foi uma nova forma de conexão cerebral, muito menos mental no sentido do pensamento, ou seja, um pensamento pouco interferente, uma permissividade muito ativa, muito participativa, muito libertadora. O que poderia parecer altamente sofisticado ao pensamento, como compassos quebrados, melodias atonais, acordes politonais, tornam-se absolutamente orgânicos, corporais, naturais aos ouvidos, porque afinal nasceram não do pensamento racional, mas da sensação da música, da percepção, de uma memória, de um lugar que está além dos limites desse pensamento. O pensamento é de fato ultrapassado, superado, não sei ao certo como definir, mas ele não atua da mesma maneira que atuaria sobre uma leitura, ou uma interpretação. Outras coisas funcionam, mas ainda não consigo precisar exatamente - até o momento é uma sensação, e espero que perdure.
O resultado da vivência foi um grupo plural produzindo uma música, que ficou aparentemente finalizada nos últimos minutos do segundo dia do encontro, com uma propriedade, como se a música fosse nossa há tempos imemoriais, como de fato deve ser mesmo, sendo fruto desse tipo de processo. E paralelamente à sensação de profunda apropriação dessa música, havia um sentimento coletivo de não propriedade, como se essa música já existisse e fosse do mundo, de alguém, de outrem, mas nós sempre a soubemos, desde a infância. Difícil descrever ainda, são sensações que gostarei de repetir em outros momentos, e vou procurar essa forma de expressão.
Digo aparentemente finalizada, pois se houvesse mais tempo, aprofundaríamos ainda mais a criação. Na alma de quem participou, ficou uma alegria profunda, sorriso estampado, lágrimas de emoção, e a sensação de performance sem tensão, em plena comunhão com a música, é o verdadeiro "ser música", se é que pode ser definido assim.
Visitem o blog do Soundcastle para entender melhor do que se trata tudo isso e tirar as próprias conclusões.
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