31 Dezembro 2011

a voz acústica



Ao longo do ano de 2011 experimentei intensamente cantar sem utilizar microfone através de apresentações, em diferentes locais, em que a voz se projetava naturalmente, ocupando o espaço sem a mediação do aparelho eletrônico.

Foram as apresentações na residência do Projeto Alberto Seabra 1128 as mais significativas para o entendimento do que é uma voz acústica, qual seu alcance, sua projeção, seu lugar no tempo, no espaço e na memória dos ouvintes.

Uma performance na sala de casa contém menos mediadores do que um palco, um auditório, um estúdio. Nessa situação específica, a sala é ocupada por um piano de quarto de cauda, poltronas, sofás, mesa de centro, vitrola e pelo aroma que emana da cozinha, dos pratos preparados para uma vivência de sentidos além da visão.


PAS 1128 - foto Bruno Prestes de Sousa


Em primeiro lugar, não se trata de uma música para acompanhar um jantar – e a recíproca é também verdadeira. Trata-se de criar um momento único, o da fruição da música, e outro momento único, o da degustação dos pratos. Trata-se de criar uma cena sem cenário – e pensando no italiano a palavra cena – jantar, tudo se completa de sentido. O público é tão ator quanto o ator, cantor, instrumentista. É tão intérprete quanto o portador da voz-texto-canção. Essa mistura de sala e cena, sem mediação, serviu de laboratório para o desenvolvimento de uma expressão vocal-corporal muito diferente do que vinha experimentando até então.

Muito interessante a experiência, que se contrapõe a mais de dez anos de trabalho de timbragem da voz com a utilização dos aparatos de amplificação. Logicamente que tudo muda. Muda a forma como o corpo se coloca no espaço para conquistar a atenção auditiva, e essa conquista eu desejava (e desejo) que se desse de maneira natural, pelo encantamento que a música pode proporcionar, e não de forma imposta.

Isso vai pra voz imediatamente – não se trata de uma voz que se coloca dura, impermeável no espaço, que pretende preencher todos os cantos acústicos. Ao contrário, a busca é por uma voz flexível, que se embrenha mansa e penetrante, que faz uso dos ruídos do ambiente, que se comunica individualmente com cada pessoa presente na sala, e algumas vezes até exclusivamente.

Uma voz acústica na sala de casa, cantando para muitos, não precisa ser ouvida por todos o tempo todo – precisa dizer que está lá cantando, mesmo sem ser ouvida, e isso é um mistério que venho descobrindo possível. Começa pelo não medo de não ser ouvida. Porque dado o recado inicial, dados os acordes da canção, já se ativa na memória de quem me escuta algo que eu nem posso saber e não pretendo – algo que está além do meu poder de voz, experiências pessoais de escuta que eu jamais poderei alcançar, mas das quais posso compartilhar em segredo.



Uma voz que não precisa ser ouvida por todos pode encontrar seu texto em outras formas de expressão, para além da memória do ouvinte – um eco, um gesto, um caminho, uma postura. O corpo se coloca e ocupa um espaço físico pontual, centraliza uma atenção, enquanto a voz pode ser emitida para qualquer outra dimensão – não é mais apenas a boca o ressonador – é todo esse corpo, o som é multi-direcional. Essa consciência de fonte sonora que emite sons para todas as direções, nada tem  ver com o pensamento frontal do microfone e do palco. É como se o microfone chapasse um plano que agora adquire outra dimensão, outro volume. O timbre da voz ouvida de costas é outro mesmo, é talvez mais grave, mais escuro, menos articulado... chega um pouco atrasado, vem com reflexões e absorsões do espaço.

A voz acústica precisa conhecer o espaço. No caso dessa sala, especificamente, a sala de casa, da casa, sobram chances de conhecer. Mas a dinâmica muda a cada encontro, com a temperatura, com as roupas das pessoas, com os instrumentos convidados, com a densidade da comida feita e com o aroma que ocupa o mesmo espaço aéreo que essa voz. Isso faz de cada performance uma experiência única e uma pesquisa intensa. Venho colecionando significados a cada uma delas.

Fico então com 2 excertos do Zumthor sobre isso, que me alimentam dia após noite, noite e dia:

“Eu seria levado a dizer que o que é transmitido pela voz existe de forma espacial muito mais do que temporal. O efeito vocal dá uma impressão de presença que se impõe, preenchendo um espaço tão material quanto semântico, em detrimento das impressões de fugacidade e de renovação, de duração, que demarcam nossa percepção do tempo (...) A voz é presença.” (p.82-82)

“A voz é algo físico, provido de qualidades mensuráveis, concretas, como são seu timbre, seu volume. O trabalho da voz é, portanto, comparável a todo trabalho sobre a matéria” (p. 120)

ZUMTHOR, P. Escritura e Nomadismo – trad. Jerusa Pire Ferreria e Sonia Queiroz – Ateliê Editorial, Cotia, SP, 2005 

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