22 Dezembro 2009

2010?

nessa passagem de ano, o assunto é o tempo
o tempo que não temos mais, o tempo que corre, o tempo que é curto...
e se mudássemos a forma como contamos o tempo?

desde uma aula na USP com a Teca, em que esse assunto foi mencionado, que tenho meditado sobre essa questão. e procurando novas maneiras de contar o tempo descobri que é importante mudar também a relação com o espaço, com as espectativas e com o que parece ser a ordem "maior"

a experiência está apenas no começo, mas consiste em andar mais pela cidade a pé ou de bicicleta, insistir no transporte público, desligar muito mais o celular e principalmente pensar o tempo em ciclos e não em fragmentos

de qualquer maneira, sinto que todos nós nos incomodamos com essa pressa que assola a cidade em dezembro... com essa correria e essa ansiedade, que faz parecer que tudo irá se acabar antes do natal e percebemos que esse movimento todo contribui para um consumo exagerado, não só dos produtos do mercado, mas de nós mesmos; que lutando para não envelhecer, envelhecemos mais no cansaço
para que?

espero que em 2010 os amigos se encontrem mais na vida real
beijos a todos e um ótimo começo de ano
com carinho,
--
ritamaria



15 Dezembro 2009

mensagem de ano novo?

então, eu sei que é repetitivo, que essa canção já foi postada aqui e tal, mas como sei também que a frequencia desse espaço é modulada, vale uma repostagem
até porque não tenho nada mais a dizer sobre o final do ano, senão essa canção que há tempos compus, e que nesse dia ganhou um sabor especial na roda de compositores do CCSP (isso foi em 2006? uau!)
posto porque é isso - é doce ver sem medo de acabar
no mar


22 Novembro 2009

a voz no canto

muitas vezes não me satisfiz com a observação de meus professores de canto, quando me diziam não para cantar com a voz, mas sim sobre a voz. afinal qual seria este grande mistério, ou melhor, este paradoxo inerente ao canto - a voz sobre a voz, a voz por si, como se transforma em algo para além do corpo que a produz, como se transporta para além da fonte sonora.


atualmente o que mais faz sentido para mim é o fato de que som é ar em movimento, e esse movimento do ar pode ser percebido de várias maneiras. pensando na escuta em si, a percepção desse ar em movimento possui várias dimensões, entre elas uma dimensão espacial.


então os caminhos me levam às formas físicas de perceber o ar em movimento. a mais imediata ao pensamento é a escuta através dos ouvidos, a vibração do tímpano, a transformação dessa vibração em código sonoro. uma outra, talvez menos imediata mas da mesma forma muito importante, diz respeito a como a pele percebe essa vibração. a pele, essa superfície que nos recobre, com suas terminações nervosas, seus poros e pelos, percebe o som da mesma forma como percebe a brisa mais sutil ou o vento mais forte. e mais a fundo ainda, como os ossos respondem a essas vibrações, permitindo que o ar que os permeia vibre também.



essa percepção mais ampla, nos traz a distância, a posição no espaço, a intensidade, a altura desse som. e mais aprofundadamente nos fala de sua produção, pensando então no som produzido por um outro corpo humano, uma voz especificamente, que reverbera dentro do corpo-fonte sonora, ativando suas próprias ressonâncias, seus ossos e sua pele. 

o corpo que escuta, tanto pode escutar o que é produzido, como também a forma dessa produção. pendulando da fonte ao receptor, do cantor ao ouvinte, temos a fusão desses dois num só corpo, o ouvinte-cantor, que então se lança na pesquisa do som, na escuta não apenas de seu som fundamental, mas de todos os outros cantos, harmônicos que se desdobram em sua caixa de ressonância, o corpo.


voltando aos professores, hoje não vejo outro sentido no canto, e tampouco na atividade de professor, que se liberta para a escuta ampla, a escuta do aluno como um todo, não apenas de sua voz emitida, o resultado final, o ponto, mas de seu caminho, do processo envolvido. o professor de canto que se disponibiliza a essa escuta como chave ao aprendizado e ao ensino, propondo o diálogo sonoro, estimulando essa escuta, como um caminho para a voz no canto, sobre a voz.


faz sentido ler: O Ouvido e a Linguagem, de Alfred Tomaits; Escritura e Nomadismo, de Paul Zumthor

20 Novembro 2009

o vendedor de flores



prosaico parte 2 - ou um prozac pro dono do carro

aqui mais uma cena urbana digna de nota, esta num tom bem mais confessional e altamente "improvisatório". sim, acabando mais um dia muito maluco, estou escrevendo algo sobre cenas do dia de ontem. enfim, estou passando por um momento de sinergia.

ontem estava indo para a usp pela manhã e vi um cachorrinho se salvar de um atropelamento, na subida da mourato coelho. ele se salvou sozinho - na verdade eu fiquei vendo o cachorro rolar sob o carro, torcendo para não pegar na roda. ele se salvou e eu pensei... caraca, os carros não páram. será que é porque eles não fabricam mais freios?

e assim começou minha quarta feira



claro que este pensamento sobre carros e freios veio por conta de uma breve percepção sobre a minha resistencia na bike. estou andando quase diariamente, encarando veículos truculentos modelo tucson, e o tempo fez com que me sentisse fluente no trânsito, resistente,  algo por aí. na seqüência desse pensamento, não me senti exatamente frágil, mas percebi que os carros não param. e pensei, na bike, por mais forte que você esteja, os carros não param.  e redutripliquei minha prudência no trânsito .

então, depois que o carro não brecou, o cachorrinho deve ter dado umas 10 piruetas em baixo dele. quando o carro passou, o cachorrinho saiu correndo, era um poodle cinza, todo de cabelinho curto.

eu fui pegar o cachorro, mas é claro que ele não se chamou toby, também não ficou comigo o dia inteiro  e eu não o levei para casa. havia umas pessoas do outro lado da rua, que aplaudiram o cachorro, e gritaram, houve um breve ritual de comemoração pela vitória do cachorrinho diante do trucson. pois é, o cachorrinho tinha o coração a mil. o carro buzinou, mas não brecou em nenhum momento, muito absurdo!


então, começou aí, a idéia de que os movimentos do universo são de expansão e contração, simultaneamentehá pontos de ampla concentração, e outros de dispersão. fui seguindo o dia na bicicleta com esses pensamentos sobre sinergia, que explica esse movimento do universo


e a rua tomou uma dimensão humana 
e eu passei a me relacionar com a cidade de uma outra maneira
resolvi que é preciso dialogar com os carros, resignificar as relações humanas dentro do espaço da cidade. de ampla forma a bicicleta promove o evento.


na volta para casa, umas 17h, aquele trânsito ridículo de sempre; encontrei um amigo na rua, com 2 holandeses. na seqüência, conversei com o hominho da CET que comandava o trânsito na esquina da avenida 9 de julho. um puta calor, e o cara com aquela roupinha de brim marrom, bota, etc... e o papo era que os uniformes deveriam ser mais leves, obviamente


na verdade ele primeiro comentou que eu estava pedalando de sandália. mas oras... nesse calor! ele é que deveria estar de sandálias, ou papetes... tem feito 30º na sombra em sampa às seis da tarde nesses últimos dias.


o mesmo dia teve ainda uma conversa com um vendedor de flores, uma correia de bicicleta caindo na subida do morro, mãos de graxa, conversa com ciclistas solidários, bate-papo com motoqueiro no farol, finas de carros trucson modelo bigshit, buzinadas e muito suor. 


salvo pelo cachorrinho
escrito com a colaboração de thiago lima nicodemo, por skype

17 Novembro 2009

no leito de um rio

Fluidez, fluidez... essa palavra adentrou meu repertório, assumindo muitos significados, ou talvez muitas significações. Sim, a idéia de fluxo, e a sensação de fluxo, como num rio que cruza um logradouro, e tem a sabedoria do passado e do futuro no presente, pois o rio é presente, mas a água que corre por seu leito nunca é a mesma. Uma água passada num lugar, move moinhos futuros, a distâncias de lá... o tempo se faz no espaço, na fluidez desse rio.

10 Novembro 2009

cantar ouvir cantar

Cantar é desafiar os desconhecidos obstáculos do corpo, do pensamento e da alma, mas ninguém tem muita consciência disso quando procura a aula de canto. No lugar mais profundo e óbvio está a voz, porque ela é diária, falamos pelas coisas mais prosaicas, e no entanto não suspeitamos da vertigem que é se jogar no universo dos tons. Falo vertigem pois essa é a sensação da maioria das pessoas quando se entregam às descobertas da própria entonação distante do universo da fala. Não da língua ou da linguagem, mas da fala, da respiração cotidiana, da pequena tessitura que disponibilizamos para nossa voz.

Então vem o canto e suas amplitudes, a voz adquire uma dimensão corporal para além da boca, da língua ou da garganta. A respiração abraça movimentos que envolvem o corpo dos pés à cabeça, e esse ar, todo esse ar, o interno e o externo, o ar entre os ossos, o ar da pele que respira, o ar do ambiente que estamos se põe a vibrar após uma simples ativação da glote. E mais absurda então se torna a voz, pois deixa de estar no corpo, ou na garganta e assume uma dimensão imensurável. Tão logo a vertigem.

Conseguir se permitir a essa sensação de abandono para então ter a ampla sensação da ressonância, requer desapegos, requer disponibilidade, curiosidade. É um estado da alma, é um estado do espírito, e é um estado do corpo. É toda uma atitude, inteira, que se inicia no pensamento, que silencia, para que o ouvido possa então agir, e expandir sua sensibilidade para o som, o próprio som, os outros sons, os sons dos outros e os nossos próprios, que muitas vezes não reconhecemos como nosso. Somente porque saíram do âmbito da fala. Então utilizam-se de outros músculos, de outras ressonâncias, de outros ares.

A escuta é o princípio da voz, é sua força geradora. Quanto mais escutamos mais ampliamos nosso som, mais voz damos a nós mesmos, o canto se expande quanto mais harmônicos somos capazes de reconhecer em nosso timbre, quanto mais próximos estamos do silêncio da nossa fala. Não existe voz sem escuta, e não há escuta sem silêncio, não o silêncio absoluto, mas o silêncio da ansiedade, que empoeira o desejo profundo da voz. A ansiedade, a pressa, que aprisionam o canto na fala. A voz é imaterial, precisa transpôr a barreira muscular do corpo. E querer cantar, antes de tudo é querer ouvir a própria voz. E de novo o medo, a vertigem.

Fico então com passagens da introdução do livro A Voz e Seus Sortilégios, de Marie-France Castarède:
A voz é emitida para ser ouvida e estabelece de imediato uma relação de alteridade e reconhecimento, porque as inflexões e as modulações da voz fazem vibrar a caixa de ressonância do nosso corpo de uma forma única e específica (...) Enigma para o pensamento, que sempre chega demasiado tarde para a perceber e que, ainda por cima, ela ameaça, a voz é também enigma para o corpo, que não sabe se a cria, a recebe ou se liberta dela. (...) esse canto, tal como a música, só se ouve no silêncio, depois de se ter esgotado a tagarelice das palavras. (CASTARÈDE: 1998, p. 11-12)
E com essa performance realizada ao lado da compositora Isla Jai no CCSP, ano passado - música "De Onde Vem o Som?" de Isla Jai (com participação de Edu Barsotti, percussão, Edson Barreto, baixo e Rovilson Pascoal, guitarra)


08 Novembro 2009

samburbano




atravessou a garoa da cidade
marcou na fila do cinema
samburbano contado no relógio
lá da esquina o camelô entoa o tema (repete 1000 vezes a ladainha)

pra batucar aqui não é problema
o ronco do motor a britadeira
bate bumbo bate carro bate estaca
nesse samba samba a cidade inteira

nesse samba samba...

letra - ritamaria (eu...)
música - rita e flávio reis
aqui nesse video:
berimbau - liliane rocha
imagens - vj mrs